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  • dezembro 14, 2020
  • 4:12 pm

Sexta carta: Tropo

Curitiba, 19 de setembro de 2020 ou aquele ano, como você diz.

Oi, Tio Chico! 

Como você está? Faz tempo que não nos escrevemos. Tenho tantas saudades das suas pílulas de aconchego, como a mãe chama, é lógico, com o seu humor, mas me sinto tão abraçado por elas, e você sabe como eu gosto de abraços, principalmente os demorados. Lembra, no quintal da vó, aquela aranha que ficava no meio das plantas dela. A tal da aranha era a de estimação da vó, porém sempre que chegava lá ela estava diferente. Nunca entendi isso, eu com os meus 6 anos pensava que as aranhas eram mágicas e tinham o poder de mudar de cor. 

Mas a questão não era essa, você se lembra das tijoladas que eu dava na aranha? Eu não podia ver aquela aranha de pernas finas e esticadas igualzinha à teia dela, que se formava ao redor, logo eu já lançava calculadamente o tijolo de barro para que ele chegasse em pé e chapado nela. Não sei o por quê de querer que ele chegasse assim, no entanto, o que eu lembro é que tinha uma certa lógica nisso, só não recordo qual era. 

Enfim, nem peço mais desculpas pra você por conta dessas minhas digressões, você me entende bem nesse lugar, formas de pensar, agir, por isso também sinto saudades de você. E, em tempos tão estranhos e difíceis como agora nessa pandemia e com esse (des)governo que está levando o país pra não sei onde, o coração aperta mais. São tantas injustiças e crueldades. Eu sei que você falaria agora que isso sempre existiu, ciclos da vida, ciclos do mundo, ciclos. Mas sei lá, com essa história de internet as coisas chegam tão rápidas pra gente, na gente. Somos atravessados por tantas mas tantas notícias e informações ruins que se misturam e reverberam e machucam forte. Você sabe sobre esse tipo de machucado, aquele de dentro, da alma, outro ponto que a gente se encontra e compartilha. A mãe fala que a gente tem alma de poeta, por isso sofre tanto. Na verdade, a gente está precisando de uma conversa sem tempo e sem pressa, aquelas que a gente tinha na varanda da mãe, eu sentado na escada de ferro que se forma como um caracol e você na rede, balançando de um lado para o outro, como a aranha quando eu errava o tijolo. Ah! A aranha! 

O que eu queria falar mesmo da aranha era que, quando o tijolo cai no chão, a vó escutava o barulho e já chegava brigando comigo, e eu fingia um choro, que todas as pessoas que estavam por ali percebiam a minha belíssima interpretação, eu “dava” esse caô, a vó logo ria e me abraçava fortemente. Sabe, nunca falei isso pra você, pra ninguém eu acho, quando a vó me abraçava, eu ria muito por dentro de uma maneira tão gostosa e isso se transformava numa imensidão de mar nos meus olhos de tanta alegria. Lembro que cheguei a chorar um dia, a vó até se assustou e perguntou se estava me apertando muito no abraço. E eu só consegui naquele momento abraçá-la mais forte ainda. 

Um dia nem vou precisar falar que digredi, só o seu olhar já é âncora, seu olhar tão vô. Tenho saudades do vô também sabe, tio Chico? Tenho uma saudade estranha do que poderia ter sido, pois quando ele  faleceu eu ia fazer 10 anos. Se ouço histórias sobre ele, tenho mais curiosidade pra perguntar pra ele quem ele era? O quê ele gostava de ouvir? Mas ouvir tudo isso dele, porque você e a mãe sempre contam histórias sobre ele, porém como será que era ele contando, o som da voz dele dizendo que adorava comer café com farinho de milho? Aquela farinha mais grossa, sabe? A mãe me contou esses dias que ele gostava muito disso no café da manhã e antes de dormir. Café com farinha de milho, comia com colher! 

Aliás, o que eu queria mesmo contar era que, como você bem sabe, continuo trabalhando naquele grupo de palhaçaria hospitalar. Está sendo bem interessante e instigante nesse momento de pandemia, muitas adaptações acontecendo. Uma outra hora escrevo pra falar sobre isso, mas antecipo que está sendo bem generoso esse trabalho, também nos abraçando nesse momento, estamos tendo a possibilidade de ficarmos um pouco mais seguros e seguras em casa. 

Voltando! Há um tempo, antes dessa maluquice pandêmica, eu fui a um dos hospitais, o que faz tratamento de câncer, e, numa das visitas, juntamente com a minha dupla de trabalho, encontrei um homem, um pai de um garoto de 8 anos, ele estava inquieto, de um lado para o outro, não tivemos muito acesso a ele nesse instante, o que ficamos sabendo por uma enfermeira era que ele estava aguardando os resultados dos exames do filho. Minha dupla e eu passamos por ele e eu só consegui uma troca rápida de olhares, o tempo de um aceno com a cabeça, como você fazia pra mim quando eu passava correndo de bicicleta na frente da sua casa enquanto você estava lá sentado na calçada. Enfim, acenei pra esse pai e seguimos em direção ao primeiro quarto daquela ala. Fechamos o trabalho nesse quarto e estávamos indo em direção ao segundo, e no caminho o pai estava em outro lugar pelo corredor, agora andando de um lado para o outro, algumas vezes roía as unhas, igual eu quando criança, até você falar que logo eu ia “chegar nos dedos e ficar sem mão” e eu ria e parava. O pai estava lá, desse jeito, quase sem dedos e sem mão de tão aflito, mas passamos por ele e nada de uma possível abertura mais convidativa, apenas outro aceno com a cabeça, agora pontuado com um leve apertar dos lábios, típico da palhaçaria.

Chegamos no outro quarto e logo saímos, esse foi mais rápido, tinha apenas duas crianças. Depois desse, fomos pra uma parte dessa ala que fica mais nos fundos, onde o nosso tempo é mais ocupado, há mais crianças  e acompanhantes lá. Ficamos nessa outra parte até o final do expediente, então fizemos o caminho de volta, e lá estava o pai, agora eu via um homem grande, traços rígidos e contido nas expressões, sentado numa espécie de balança que fica no meio do corredor daquela ala, uma balança grande que pesa até pessoas na cadeira de rodas. Ele estava lá sentado, de costas pra gente. Passamos por ele e eu me virei com o intuito de dar um tchau ou algo próximo disso, pois uma relação tinha sido criada e estabelecida respectivamente nos dois primeiros olhares com ele, e eu senti a necessidade de concluir esse encontro. Com a cabeça sobre os ombros, olhei profundamente nos olhos dele e senti a permissão, aquela faísca que você, indiretamente, me ensinou a perceber. Lembro que você é tão sagaz nisso, sabe como perceber os caminhos e se adentrar mata adentro em cada pessoa. Eu acho isso tão bonito em você e tento cada vez mais me apropriar de alguma forma disso. Voltando pra história do pai, nesse momento, quando o olhei e senti essa permissão, dei um toque pra minha companheira, que seguiu adiante, eu voltei e sentei ao lado dele. Ficamos um tempo olhando pra frente, pra infinitude do corredor, até que ele quebrou o silêncio que não estava perturbador, era um silêncio sincero, como você chama, tio, ele rompeu esse silêncio sincero falando: – Sabe, é nesse momento, que a gente dá valor para coisas assim. Eu apenas acenei com a cabeça agora o fitando nos olhos, ele não aguentou e se derramou em lágrimas. Chorou de forma contida mas chorou, se permitiu. Nesse momento lembrei de você falando, desde sempre, que homem que é homem chora. Hoje entendo muito bem sua colocação “homem que é homem“, acho tão bonita e potente essa sua capacidade de desconstrução das coisas que pra muitos são tão banais ou tabus, isso é outra coisa que me inspira bastante. Enfim, naquele momento, com aquele homem chorando ao meu lado, a única coisa que veio pra mim foi oferecer um abraço forte, apertado e demorado, o qual foi aceito e retribuído. Senti tantos atravessamentos naquele instante, tio. Lembrei tanto de você e de nossas conversas sobre suspensões momentâneas, lembrei tanto do abraço acolhedor da vó, percebi a palpitação no peito daquele homem respirar. Foi um momento bem intenso que carrego comigo até hoje, como você me ensinou, carregar os alimentos e deixar as cascas, pois elas nutrirão outras além de nos deixar mais leves pra seguir viagem.

É isso tudo, Tio Chico, o quê está pulsando em mim. Agradeço toda a forma de carinho emanada daí e envio outras tantas pra você. Peço também que avise a mãe que estou bem e logo escrevo pra ela pra contar sobre a possibilidade de mudança para uma casa aqui. Sim! Vou me mudar mais uma vez. Achei uma casa com um quintal maravilhoso. E agora, nesse momento de pandemia, o que eu não quero é ficar trancafiado aqui dentro desse apartamento. Há sol lá fora e aqui dentro o frio vigora, até pega sol à tarde, mas não é a mesma coisa que um quintal aberto. Ô quintalzinho… Bom era o da vó, com aranha e tudo. Seu olhar pra mim percebo.

Fico por aqui. Ah! E não se esqueça de contar pra mim sobre o livro que você começou a escrever, fiquei sabendo pela mãe. Você sabe bem como é ela com informações secretas né.

Um forte abraço em você!
Fique bem como pode. 

Mateus

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