Coloridos e afobados, descem as escadas e caminham até a esquina. Entram ora num táxi laranja, (afinal, esta seria uma cor plausível) ora num táxi preto, ocasião em que se sentem chiques. Embarcados para uma nova aventura, sonolentos ou não, eventualmente bem humorados, cortam as ruas de um novo dia cinza.
Em outro ponto da cidade, ergue-se imponente e intimidador o prédio com seus muitos andares. Seu interior é atravessado por longos corredores com caminhadas apressadas, ruídos metálicos e o sobe e desce do elevador. Melhor, quatro elevadores que têm seu próprio tempo (que fique aqui registrado). No horizonte, pela vista emoldurada das janelas, vê-se um mar de casas e belas montanhas que, ali, só os olhos podem alcançar.
Desembarcam em frente à maternidade, carregando histórias sem pé nem cabeça, a fantasia de uma suíte master humanizada (?) com serviço de quarto 24h e nenhum bebê dentro ou fora das barrigas. Rumam para o grande prédio, pelo mesmo caminho onde anos antes fizeram aquelas muitas serenatas… O tempo passa, as palhaças e palhaços são outros, mas alguns permanecem os mesmos (ou não).
E dá-se então o encontro entre cores e concreto, num misto de luz e sombra, riso e lágrimas, silêncio e som. Existem dias e dias, é claro. Dias arrastados de encontros conversados. Dias enérgicos de encontros entusiasmados. E dias sensíveis, de encontros entre olhos marejados e narizes vermelhos. Todos eles em sua paradoxal singularidade, afinal, tratam-se dos encontros.
Satisfeitos ou não, mais ou menos arrebatados, irremediavelmente atrapalhados, os encontros findam. Palhaças e palhaços caminham para o mesmo lugar, esperando pelo mesmo automóvel laranja ou preto, plausível ou chique. O prédio, naturalmente, permanece imóvel.
A prova da efêmera passagem não pode ser coletada através de digitais, através de pegadas sobre o chão lustroso e rigorosamente higienizado ou mesmo registrada em fotos e vídeos. A prova se dá pelo invisível que ecoa nos olhos, bocas, braços e corpos tocados pelo encontro. Pelo movimento peculiar que se nota não durante, mas após a passagem: o rastro.
Yara Rossatto – Palhaça Solara