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  • setembro 10, 2020
  • 3:41 pm

queria ter parado mas me faltou coragem

segundos minha própria pesquisa neste blog, o assunto no qual mais investi tempo é: tempo.

não tinha parado pra pensar nisso até uns dias atrás, quando parei. quase parei, na verdade, porque eu penso andando. e ando pensando bastante. gostaria de dizer que ando devagar porque já tive pressa, mas se eu ando devagar provavelmente ainda tenho pressa, só que em vez de ter pressa com as pernas acabei tendo pressa com os pensamentos.

e se eu não parei, tampouco parou o tempo. o tempo não para. e se recusa a parar: mesmo com tanto tempo investido nele, o tempo não para de me fazer pensar no tempo. o tempo me é recorrente. não para, não para, não para, não.

para ter uma ideia: faz uns vinte minutos que comecei a escrever e até agora o tempo não parou. e já não tinha parado anteriormente, quando pensei nele bem antes de pensar no texto. 

e acredito que coleciono sinais de que o tempo não para: os ponteiros do relógio mudando de posição, o tic tac incessante, o amanhecer e o anoitecer, o vai-e-vem do sol com a lua, a sementinha que virou planta, o pó que juntou no canto do quarto, as marcas de expressão na testa, os cabelos mais no chão do que na cabeça, o calendário mudando a foto, o miojo cozido em três minutos, o galo cantando (e a casa caindo), o cansaço, o despertador… o despertador! por favor, só mais cinco minutinhos!

digo eu a mim mesmo quando clico no soneca do celular e diz também a paciente quando acha que a gente ficou pouco. o tempo agenda nossas carências. eu, a propósito, tenho uma carência de sono agendada para amanhã de manhã quando eu acordar atrasada porque dormi tarde escrevendo esse texto. era tarde, mas não era dia. tem dias, aliás, que o tempo me agenda umas carências de gente, quando faz tempo que não vejo quem gosto. carência da presença, que vem como solidão e me passa uma rasteira quando eu penso que quando era pequeno nunca tinha pensado em sentir isso. solidão? jamais, eu quero ter um milhão de amigas. vamos passar muito tempo junto. 

precisou eu adultescer, pra entender que faz falta estar com e ser estado com. na cronologia histórica, divide-se em ac/dc – antes e depois de crescer. quando jovem, se me pediam pra eu visitar – vai lá em casa, anjo – eu achava que a pessoa nunca queria dizer isso. todo mundo tem muito mais que fazer, só diz por educação. agora, na adultez, o tempo mostrou que tempo é relevante. se não dedica tempo, a sensação é de esquecimento.

por isso me identifico com a paciente que, pacientemente, passa tempo no hospital, muitas vezes sozinha. já sugerimos um ferro de passar e um relógio, pra passar o tempo. não adiantou. servia melhor passar – palhaçar – o tempo com a gente. e quando saímos não não não pera aí, volta aqui, já vão, como assim sair? e eu fico, eu entendo. um pouquinho, pelo menos, só um comentariozinho, uma dancinha, um respiro pra dizer que não só entendo: eu estou com. e gosto de ser estado com.

depois, sigo o caminho. aliás, seguir caminho não, que é muito determinista e dá a entender que desde muito tempo já tem um caminho traçado esperando ser seguido. abro o caminho. opa. pensando agora: se abro o caminho, eu que decido quando abrir? 

e se escolho não abrir, posso parar?

ficar um tempo a mais ou a menos?

não fazer nada?

estar com e ser estado com?

parar para estar presente onde, só agora, percebo importante a presença. com os sobrinhos, com a mãe, o pai, os irmãos, a cunhada, a avó, o avô, o amigo, a amiga, com quem ta doente, com quem ta bem, com quem ta só, com quem se arrepende, com quem quer mostrar a foto da viagem. comigo. com pessoas.

não duram, não duro. estamos com no tempo que temos.

todavia, se aqui paro para mais, em algum lugar devo parar para menos. é a balança que, infelizmente, o tempo demanda. a escolha de um cria consequência no outro. no sistema, tempo é dinheiro. aí eu paro e penso: me falta coragem às vezes. e na falta de coragem, ando devagar porque, apesar de ter pressa, deixo no pensamento. uma hora (ou duas ou três) ele alcança o corpo e pensa devagar. e somam coragem pra parar.

Bruno Lops / Lourdes

Junho de 2018

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