Ela estava prestes a chorar, chegamos de mansinho, entramos no quarto e a médica chegou em seguida. Estávamos prontos para sair, mas a médica fez questão que ficássemos: – bem rapidinho, já vou sair.
Ficamos então, eu e Túlio, apesar de nos sentimos inadequados, porque ninguém nos olhava. Até que a paciente, bem pequenininha, se esquivou da médica para nos olhar. Nesse momento percebemos que ela nos queria ali. Túlio pendurou seu próprio jaleco no gancho da parede e eu fiquei tentando soltar o palhaço e o jaleco dali, puxando e olhando pra ela, tentando levantá-lo e olhando pra ela, pegando na perna do Túlio e olhando pra ela. A menina se entregou ao exame com atenção cirúrgica em cada movimento nosso. Movimentos esses que brincavam com alturas, pesos e medidas, tudo com a agilidade e leveza que podíamos ter no que nos dividia dela e o choro. Ficávamos transitando entre esse estreito espaço possível. Até que a médica saiu e, por fim,consegui tirar o palhaço e o jaleco dali.
Ela não sorriu, mas também não tirou os olhos da gente. Mantivemos o ritmo, com ar de palhaços desastrados e atrapalhados, nos olhamos e saímos ainda no auge, mesmo querendo ficar. Ninguém mais viu, não recebemos aplausos nem sorrisos… e a reflexão que fica é: qual a grandeza na miudeza anônima? Na miudeza que talvez não seja contada, mas que regresse em um sonho, um sonho despretensioso que vem em uma tarde, depois de dias sem dormir direito. Um soninho depois do almoço ou quem sabe no café da tarde. Talvez em sonho ela revisite aquela palhaça atrapalhada que tenta salvar sua dupla, que é um palhaço mais atrapalhado ainda! Quem sabe no sonho ela esteja falante, sem dor e até me ajude. Sei que este texto é uma maneira de contar pra você que está lendo, algo que aconteceu em algum lugar do tempo e espaço de nós três. Mesmo com muitas imagens acontecendo, fomos embora. No entanto, quando saímos do quarto, ela chorou… vai ver queria que ficássemos.
Willian de MeloEditar perfil
- Hospital Pequeno Príncipe, aquele que luta todos os dias pela vida de nossas crianças.
Biaflora Lima – Palhaça Melanina