Eu ainda não consigo entender por que as crianças adoecem. Não consigo aceitar!
Hoje fui ao Pequeno Príncipe e a verdade é que de cara ver um bebezinho cheio de luz no colo de um pai aflito me partiu ao meio. Vê-lo sorridente, primeiro ganhou meu coração e eu disse “me apaixonei! E agora? Como vou viver já que você ganhou meu coração?! ” e ela sorria um sorriso acompanhado de gargalhadinhas. Eu fiquei ali naquele momento e o pai até deu um sorriso, tímido mas a dureza do seu olhar me atravessou o peito. E isso me trouxe um choque de realidade que me paralisou. Entrava e saía dos quartos tentando manter meu olhar de palhaça, mas parece que algo se descortinou e passei a ver outras coisas. Vi mães se agarrando a toda e qualquer possibilidade de cura, uma rogou no corredor por nossa visita pois era a última quimio da filha. Mas o que vem depois da quimioterapia? Chegamos na hemodiálise e tinha uma cadeira vazia, a mãe ao lado disse, “ele transplantou!” Com uma voz de vitória, similar a de uma final de copa do mundo. Mas o que vem depois do transplante? Que batalhas estas crianças ainda precisam viver? O que eu faço com a empatia que eu sinto… Assim como essas mães, também já tive que segurar em mãos de enfermeiras para pedir remédios para a minha filha, que estava com dor. Lembro das vezes em que tive que sair do quarto pra chorar… Se eu pudesse, pegaria uma espada, um facão, arco e flecha e lutaria sem medo contra qualquer doença de crianças que eu não conheço.
Por fora, figurino amarelo, cores vibrantes, sapato bonito de flor e um jaleco engraçado. Eu caminhava sorrindo, mas por dentro parecia que algo havia me derrotado; até que vi uma menina pequenininha, bem miudinha, de cabelo cacheado, caminhando no corredor pendurada por um acesso com um medicamento que eu não sei qual é. Ao seu lado uma enfermeira amorosa e seus pais que, ao nos verem, viraram crianças de novo. O tempo congelou e ela me abraçou. Eu ali, ajoelhada, completamente derrotada por um banho de consciência de humanidade, estava sendo salva por um abraço. As mãozinhas muito pequenas me apertavam nas costas e elas não soltaram mais. Eu não sabia o que fazer, os pais tirando foto, minha dupla conversando com a enfermeira, o mundo acontecendo e eu ali, parada, recebendo muita luz dela. E ela, mesmo sem saber, me curando, me devolvendo a alegria. Ficamos por minutos naquele abraço, talvez o mais longo que já recebi no hospital. Aquele corpinho, o sorriso escondido na máscara rosa e o pijaminha do Pequeno Príncipe voltaram para o quarto. E eu? Acho que fiquei ali. Naquele abraço.
Todos dizem que levamos a alegria para os pacientes, mas hoje eu precisei buscar a alegria no abraço de uma pequenina.
Biaflora Lima – Palhaça Melanina