nov
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OLHA! A CRIANÇA TÁ AÍ DENTRO DO QUARTO!

Desta vez eu olhava sem estar de palhaço. Era eu humano olhando outros humanos, alguns sendo outros nem tanto. Ou será que só o humano consegue não ser humano? E quando não é humano é o que?

Bom, estava eu como observador, acompanhando os palhaços numa visita a um dos hospitais, o qual irei me abster de mencionar para que pessoas não sejam identificadas.

Era na ala da pediatria. Há alguns anos já havia presenciado uma situação como a que vou descrever, mas eu estava de palhaço na ocasião. Desta vez como observador.

Como dizia, eu observava os palhaços visitando os quartos da pediatria de um dos hospitais que visitamos semanalmente. Eles entravam, brincavam e saíam. Faziam seu trabalho. Então, outras pessoas, “fazendo seu trabalho”, ou acreditando estar fazendo chegaram. Era uma comitiva de médicos residentes, acompanhando um médico experiente e professor. Aproximadamente 20 pessoas.

Me chamou e muito a atenção o fato de estarem num número tão alto e visitando os quartos. Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o modo de atuação. O professor entrava no quarto seguido pelos demais aproximados 20 alunos e alunas residentes. Entravam no quarto, davam bom dia e paravam para ouvir o residente responsável pelo paciente. De tanta gente alguns ficavam para fora da porta do quarto, por não caberem dentro e não por bom senso, pelo que me pareceu.

Então, sem olhar para o paciente, mas sim para sua prancheta e, como lendo um pregão ou relatório, friamente, o residente descrevia o que fora feito de exames e procedimentos e os resultados. Todos o observavam ler sua prancheta, inclusive o paciente, uma criança e sua mãe, sem saberem o que significava tudo aquilo. Após terminada a explanação do relatório técnico, o médico professor, perguntava para a mãe e paciente alguma coisa, como quem da tchau, mesmo que dizendo “oi, tudo bem?”, ou “ta dormindo bem?”, já se despedindo. A pergunta era como uma despedida. Não dando muito tempo ou espaço para uma resposta de maneira mais em relação com a pessoa. Sabe quando perguntamos meio que por perguntar?

E então, depois de uma breve resposta de sim ou não, a “comitiva” de homens de branco saiam do quarto com ar grave e sério, com seus corpos eretos, para então se dirigirem ao próximo quarto e ouvir o outro médico residente ler sua prancheta.

Fiquei pensando quanto tempo será ficam a mãe e a criança angustiados à espera da vista do médico para ter uma conversa e saber sobre os exames e a situação do paciente? Então, chegam em bando, entram com seus semblantes graves e sérios, com seus corpos eretos, muito parecidos com desembargadores entrando para uma sessão no Tribunal, com a diferença de que os desembargadores vestem preto e os médicos vestem branco. Daí, descrevem procedimentos e exames realizados, bem como resultados, com uma linguagem técnica, falando entre si, ignorando a presença da criança, ou melhor, ignorando o que provoca na presença da criança e, com um sorrisinho de conversa de elevador, o professor faz uma pergunta em tom de despedida e se retira do quarto com toda a comitiva.

Eu observava tudo isso do balcão da ala. Mas, no primeiro quarto que os vi visitando, eu me aproximei e fiquei perto dos que estavam para fora do quarto e, por estar tão cheio o ambiente eu não consegui ver se o paciente estava presente ou não. E perguntei para um dos residentes: “Oi. O paciente ta ali dentro do quarto?” E ele me disse: “Sim, sim. Ta sim.”

Depois de dois ou três quartos visitados e eu observando do balcão da ala, após um olhar de longe e talvez um cochicho com alguém, uma das moças, talvez a residente monitora do professor, pois ela era quem ficava mais perto dele, veio em minha direção e perguntou: “Tudo bem? Posso ajudar em alguma coisa? Você ta querendo falar com alguém?” Então me identifiquei como integrante do grupo e expliquei o que eu estava fazendo por ali, ou seja, observando os palhaços trabalharem, bem como, o ambiente do hospital. E ela então dsse: “a tá. Tudo bem. É que você tava olhando e achei que estava querendo alguma coisa.”

Depois de um tempo, aproveitei a brecha dela e fui conversar: “Oi fulana, já que você se mostrou interessada, eu gostaria de lhe perguntar se você conhece nosso grupo, se já viu os palhaços por aqui, se sabe do que se trata nosso trabalho.” Ela disse que sim, que já viu sim, estão sempre brincando com as crianças e tal. Então perguntei qual a impressão que ela tinha de nosso trabalho ou dos palhaços. E ela respondeu que não podia dizer muita coisa, pois estava sempre uma correria e não podia observar direito. Ah! Ela também, disse que me abordou porque pensou que eu fosse alguém que eles estavam esperando da assistência social.

Fiquei pensando se eles e até nós mesmos temos consciência de que nossos trabalhos estão interligados? Ou seja, será que o palhaço também não pode ter como foco aliviar tensões depois de uma visita destas? Ou mesmo durante, como o palhaço pode trazer para consciência de todos ali o que está acontecendo, de maneira brincada e relaxada.

Lembro que na ocasião que mencionei que já tinha presenciado uma situação como esta, em que eu estava de palhaço, minha dupla, a palhaça Iva Lourença brincou com a situação, fazendo como se a criança fosse uma obra de arte e os médicos, talvez, o guia e visitantes de um museu, apreciando a obra de arte que era a criança.

Palhaço Ipsis Líteris / Hique Veiga

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