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E O PALHAÇO QUE PODE

Sabe que ta gostoso trabalhar de palhaço. Tá gostoso poder ser palhaço. Brincar comigo e com as pessoas.

Confesso que têm dias que vou indo para a produtora sem muita vontade. Me perguntando que trabalho é esse? O que eu to fazendo aqui? Não sei se quero mais. Mas quando coloco o nariz algo bem bom me acontece. Um sorriso interno brota. E uma liberdade de poder me relacionar com as pessoas de maneira que não me relaciono quando não estou como palhaço.

O palhaço é uma permissão para ser óbvio, para ser surpreendente, para convidar ao sorriso.

Num destes dias, nos arrumamos, nos vestimos e vestimos nosso nariz, nosso ser que brinca. Chegando na rua para ir ao hospital, havia um carro e uma moto da polícia estacionados na frente. Haviam alguns e algumas policiais. Sorriram para nós e pediram para tirar fotos com seus celulares. Começamos a brincar com eles e, espontaneamente, eu disse: “Vamos roubar um banco!!” Eles riram. E eu emendei: “Vocês são ladrões de bancos disfarçados, com estas roupas ninguém vai desconfiar!” Agora, contando isso, nem me parece tanta coisa, mas na hora foi muito divertido. E, ao mesmo tempo, bastante ousado.

Penso que é mesmo uma permissão que o palhaço tem. Quando ou como eu poderia falar assim com um policial, sem estar de palhaço?

Quando eu poderia entrar num hospital e já no hall de entrada fazer ou dizer algo que desperte um riso ou sorriso naquelas pessoas?

Quando eu poderia enrolar uns cartazes que carregava, fazendo um cano e emitindo um som parecido com um berrante? Dizer que tenho uma fazenda no Mato Grosso? Quando eu poderia, numa sala de espera da triagem de um hospital, cheia de pessoas que estão tensas por estarem com a necessidade de um tratamento, brincar de mãe e filho com minha dupla, trazendo, de maneira espontânea e improvisada, questões de nossa infância, como a birra, o desejo, a manipulação, a raiva e o carinho pela mãe.

Quando eu poderia entrar em um setor do hospital, onde funcionários trabalham 8 horas por dia numa sala sem janela e com o teto bem baixo e “brincar” com questões trabalhistas, afirmando como se fosse óbvio que eles recebem adicional de insalubridade e eles, rindo, dizerem que não! “E adicional noturno?” Aí eles dizerem rindo que só trabalham de dia. E então eu digo: “Mas lá fora já é noite! Vocês não viram o tempo passar! Abre a janela pra vocês verem! Ué! Não tem janela?” E todos riem.

Entrar em um quarto com dois pacientes, um em cada cama e dizer que deve ter havido algum engano, pois nós ligamos para o hotel e reservamos duas camas, sendo nos informado que era no quarto xxx, então, que por favor eles se retirassem. E com a reação dos pacientes e acompanhantes rindo, nos mantemos sérios e vamos insistindo cada vez mais sérios dizendo que vamos chamar o segurança, o gerente do hotel, caso se recusem a sair e depois de algumas explicações e tentativas de encontrar uma solução, de alguma forma resolvemos saindo do quarto, ou percebendo que foi um engano ou dando um prazo para que saíssem antes que retornássemos com o segurança.

E um funcionário do hospital maravilhado por vestir e tentar tocar uma sanfona da palhaça.

E cantarmos “Alecrim Dourado”, para pais e mães de crianças na fila de espera para entrada da UTI da Cardio do Hospital Pequeno Príncipe, acompanhados por eles cantando baixinho.

Bom, são tantas coisas todo dia que, muitas vezes, a importância, grandeza e profundidade de nossa superficialidade nos passa despercebido.

Mas, esta semana alguma coisa em mim quis reparar.

Palhaço Ipsis Literis / Hique Veiga

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