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A PREGUIÇA QUE NOS MOVE

Na ala da Cardiologia do Hospital Pequeno Príncipe, uma mãe me pede “Palhaço Pelúcia, você pode cuidar da minha cadeira enquanto eu estiver fora, por favor? ”. Talvez ela não tenha dito isso, mas ela saiu um pouco da enfermaria para resolver alguma coisa e deixou sua cadeira vazia. Eu logo sentei. “Ai que preguiça! ”. Me lembrei do Macunaíma de Mário de Andrade que repetia este bordão. Talvez eu não tenha lembrado disto na hora, mas o fato é que eu sentei e estava com muito sono, os meus ossos estavam três vezes mais pesados, as minhas pálpebras estavam cinco vezes mais pesadas que o normal, e uma dorzinha no ciático estava me perturbando. A Palhaça Carmela, minha dupla daquele dia, veio a mim e disse “Vamos Pelúcia, temos que continuar nosso trabalho! ”, “Mas eu preciso tomar conta das coisas da moça, não é? ”, olhei para a mãe de um paciente, buscando cumplicidade, e obtive um sinal de afirmação comprovando a lisura de minha palavra. “Viu. ”, “Mas Pelúcia, precisamos visitar as outras pessoas! ”, “Não posso deixar a cadeira desassistida! ”. Percebendo que eu seria irredutível, Carmela foi um pouco mais enfática e me agarrou pela mão. “Vem Pelúcia! ”, mantive-me firme. “Não posso Carmela, é meu dever sustentar minha palavra! ”. A saber, Pelúcia é um palhaço de palavra. Se disse o que disse é porque quis dizer o que disse, e vice-e-versa! Mas estava difícil relaxar e tomar conta daquele acento com a Carmela puxando meu braço. Existem momentos que devem ser cultivados, e aqueles voltados ao descanso mais ainda. Ninguém faz nada sem descansar. Há quem fale do ócio criativo: aqueles períodos em que deixamos livres os neurônios para fazerem sinapses inesperadas, ampliando nossas capacidades neurais. Ouvi dizer que os mais complexos problemas científicos foram resolvidos pelos cientistas durante momentos de descanso, sono ou divertimento. Vejam, minha preguiça está justificada. Estava tentando resolver algum complexo problema. No caso, o problema era eu estar no meio do meu trabalho do hospital e a minha dupla dependendo de mim para seguirmos adiante, mas, ao mesmo tempo, precisar dormir, quero dizer, precisar tomar conta daquela cadeira para a moça que saiu. E falando dessa conversa de ócio criativo eu não tô inventando nada. Até Deus, que é Deus, tirou uma soneca depois que criou umas paradas. O trabalho criativo precisa sempre destas pausas nas outras atividades. E não me venham com aquela fábula criada pelos maus patrões, “A cigarra e a formiga”. A mentira tem a perna curta, e formiga tem as perninhas bem pequenininhas. Quem disse que a arte da cigarra não é um trabalho? E se não fosse a cigarra, quem faria do tempo de trabalho das formigas um momento mais palatável, com uma bela canção pra embalar a labuta? Eu quando tenho que lavar louça, coloco música pra escutar. Lavo a louça mais feliz e até gostando. Não estou dizendo que uma música faz de um trabalho ruim um trabalho bom. Trabalho ruim é sempre ruim, e é muito injusto que tenha gente que seja obrigada a trabalhar com atividades degradantes e cansativas ganhando pouco pra sobreviver. Não é sobre isso que estou falando. Estou falando da cigarra estar fazendo um trabalho socialmente importante, culturalmente enriquecedor, que as formigas reais, não as da fábula, estariam gostando. Criar músicas, estudar e praticar um instrumento não é moleza não. Se fosse, toda formiga era cigarra. E coitada da cigarra, durante o inverno, ela não estava pedindo às formigas um salário de trinta mil reais mensais, com adicional de auxílio moradia, adicional de auxílio transporte, plano de saúde de cobertura total para toda a família, cartão corporativo, estabilidade garantida e um monte de regalias. Não confundamos, esse é aquele que trabalha no poder judiciário Brasileiro. Não, ao contrário, a cigarra, coitada, estava se submetendo à lógica do trabalho anterior a legislação trabalhista, ou seja, estava pedindo em troca de seu trabalho apenas alimento e pouso aquecido. Isso, no correto português, se chama trabalho escravo. Ou seja, a cigarra já estava subvalorizando seu próprio trabalho e ainda inventam uma fábula pra dizer que o trabalho dela deve valer ainda menos! Aí é que eu fico brabo com nossos legisladores, deputados e senadores, que se apoiando em não sei que teoria maldosa, enfraquecem nossas leis trabalhistas, fazendo com que este tipo de condição volte a ser aceita na negociação entre empregador e empregado, podendo até diminuir ainda mais o tempo de almoço dos trabalhadores. Ouvi uma barbaridade que dizia algo como “…enquanto trabalha com a mão direita, pode comer com a mão esquerda…”. Imagina a qualidade desta refeição? Havia um tempo em que a refeição era respeitada como uma cerimônia, pedia-se silêncio não era à toa. Diz-se que é preciso mastigar muito bem antes de engolir, por mais preguiça que tenhamos de mastigar. Além do mais, tem muita gente que adoece por causa do estresse, e comer com pressa, trabalhando ao mesmo tempo, coisa boa não é. Mas hoje em dia não temos mais parâmetros pra nada, as pessoas acham normal até sermos governados por pessoas que não foram eleitas. Eu é que não vou brigar por uma refeição digna. Vou apenas dizer e repetir; “eu sou palhaço, e esta é minha profissão! ”. E ai da formiga que vier me picar, eu é quem pico ela. Tem gente que acha bonito o trabalho militar e disciplinado da formiga. Mas até no exército tem oficial da banda militar! Eu gosto das bandas militares, sempre que estão tocando em algum lugar paro pra ver. A música é alimento pra alma, sem ela, sem a arte, somos pobres, muito pobres. E a Carmela me olhando… “Mas da cadeira eu não levanto! ”, eu disse. E disse tudo aquilo pra Carmela, do ócio criativo, dos problemas complexos da ciência, da soneca de Deus, da mastigação correta, da formiga que tem que ouvir mais músicas, da bandinha militar, da riqueza de espírito e etc. Talvez eu não tenha dito tudo aquilo, talvez tenha pensado. Talvez tenha sonhado sentado na cadeira. Mais provável que tenha sonhado. Mas infelizmente, neste caso, ela tinha razão. Ela me convenceu fazendo de conta que me jogava água, me fez lembrar da brincadeira de arrepiar-me com a agua gelada. Àquela água que jogamos no rosto logo de manhã pra acordar melhor. E acordei, pronto pra, junto com a Carmela, sermos as cigarras da cardiologia do Hospital Pequeno Príncipe.

Palhaço Pelúcia / Bruno Mancuso

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