jun
01
“Que bonito o trabalho de vocês”

texto de Camila/Carmela, com amor,
para Bonito e Pelúcia.

– – –

     No hospital. Bonito e Pelúcia estão acabando de visitar um quarto, despedindo-se das pessoas. O quarto é a coxia do teatro. Eles entram no palco como se fosse o corredor do hospital, ainda terminando a ação. “Comemoram”. Passa uma senhora… sorri, bate delicadamente no rosto dos palhaços e diz “Que bonito o trabalho de vocês”. A senhora sai.

Pelúcia – Sim! E nós recebemos para fazer isso minha senhora!

Bonito – (sem jeito) Recebemos? Fala baixo, meu… o pessoal pode ouvir…

Pelúcia – Ué? E qual é o problema?

Bonito – Porque para ser trabalho precisa ser sofrido, acordar cedo, ser obrigado a trabalhar… entendeu? Daí sim, você merece dinheiros…

Pelúcia – E você acha isso, Bonito?

Bonito – Ah não, “trabalho bonito” foi a senhora que falou…

Pelúcia – Não, Bonito, eu tô falando com você…

Bonito – Eu? Eu gosto do que eu faço, eu faço com prazer… eu faço até de graça!

Pelúcia – Então se faz de gracias não é trabalho cara!

Bonito – Faço com amor! (para a platéia)

Pelúcia – Por amor? É voluntariado!

Bonito – Muito amor! (para a platéia)

Pelúcia – É da igreja!

Bonito – Não, cara, não tô indo pra igreja, não… Deus que me livre…

Pelúcia – Então é pecador, vagabundo, drogado, locke, viciado, psicopata…

Bonito – Pare, Pelúcia, cê tá muito malsonaro…

Pelúcia – Não, cara… você precisa se cuidar… depois vai ficar aí jogado na rua… pedindo no sinal…

Bonito – Oooo por falar nisso, a gente podia se apresentar no sinal, né? Dizem que dá dinheiro… não tô conseguindo pagar as contas…

Pelúcia – A gente precisa treinar bonito, isso sim… ensaiar uma música, malabares, facas…

Bonito –… (escutando… tem a sacada) É isso, Pelúcia! Técnica!

Pelúcia – Não, técnicos não precisa… depois tem que pagar os caras… a gente mesmo que faz a luz e o som…

Bonito – Não Pelúcia! Temos técnica! É trabalho!

Pelúcia – É mesmo… técnica! (Pelúcia faz triangulação… faz uma gag… tropeça e cai… os dois riem)

Bonito- (vendo Pelúcia caído no chão) É isso, Pelúcia… o trabalho dignifica o homem… através da técnica ele transforma… ele transforma (com inteligência… tentando se lembrar)… ele transforma a natureza do trabalho…

Pelúcia – A natureza do trabalho?! (fica de pé) É isso! Vamo transformar a natureza do trabalho… que bonito! Isso é bonito!

Bonito – É isso! Vamo pintar tudo de verde… plantar umas árvores, vamos voltar para o campo, vamos ser índios, viver pelados, viver o amor livre…

Pelúcia – Isso é pré-conceito!

Bonito – Ah larga mão… é brincadeira!

Pelúcia – Brincadeira? Se é brincadeira não é trabalho!

Bonito – Puts… lá vem você…

Pelúcia – Precisa ser sério! Político entendeu?

Bonito – Político sério?

Pelúcia – Pois é…

Bonito – Mas é brincadeira! E ponto! Senão, você vai começar tudo de novo… já resolvemos que é trabalho!

Pelúcia – Brincadeira? Brincadeira? É recreio! Fim de semana!

Bonito – Fim de semana?

Pelúcia – Fim de semana!

Bonito – Eu vou trabalhar nesse fim de semana…

Pelúcia – Mas é fim de semana, Bonito!

Bonito – Pois é, meu, mas eu vou trabalhar… e vou de Bonito…

Pélucia – E eu vou junto!

(os dois vão saindo de cena)

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